21.4.07

Urgência e Emergência

Há momentos em que filosofia vem de lugares em que não se espera algo mais profundo que um copo de whisky com energético: tudo faz um sentido esquisito, uma verdade definida – bem ao gosto de quem gosta da sensação de controle na vida. Sim, até os problemas são cíclicos, então, por que não me deixar apenas “ser”, sem muita interferência do self? Sei que estou nesse(a) “mood” quando os sentidos estão à flor da pele e eu tenho essa urgência de sentir e fazer de tudo, antes de morrer. Acho que eu só sinto essa emergência de vida porque eu estou procurando pela morte e lembro que eu não sou uma ilha e que o balanço das coisas é muito mais complexo do que apenas um eu que não tem coragem de pontuar as coisas devidamente – e sim, dói mais ainda porque eu duplamente não gosto dessas realidades (nem quando eu as invento). Queria, do fundo do coração, que as coisas fossem mais fáceis na minha cabeça, e que eu fosse menos acomodado – sim, também sou um paradoxo vivo. E adivinhe: também não gosto disso! Alias, acho que não gosto de nada que saia do mundo das idéias e deixa de ser misteriosamente inalcançável. Eu sei que já disse isso, mas preciso de mistérios pra viver. O que eu digo não faz muito sentido nem pra mim – acho que principalmente pra mim. Não, não faz porque eu me condicionei a esquecer as coisas, e fico, por isso, me repetindo.

De repente fiquei com raiva. Agora não é mais o sentido que ficou esquisito, mas o(a) “mood”. Calma! Odeio estrangeirismos! Odeio quando eu não uso meu vernáculo natural... é a minha maneira de me manter vivo, de saber quem eu sou, no meio de tantos eus. Calma! Não é isso que eu quero – não agora! Não quero sentir pena porque estou em estado de urgência! Preciso de um empurrão que me tire dessa inércia na qual se encontram todos os meus sentidos. (Não sabia que se entorpecia conscientemente também...) Como sempre, preciso de novidades. Desta vez eu estou me rendendo aos extintos mais primitivos que eu tenho (ou acho que tenho) e a fome dessa vez é de comida mesmo. Comida e teto. Acho que o céu não é mais o limite porque durante o caminho eu desisti do castelo e agora preciso da casa. Comida, teto e senso. Sim, minha vida precisa de um senso. Mais ainda do que preciso de um objetivo – o que começo a achar que é algo com o que eu não vou lidar nunca na vida. Começo a achar que minha mãe sempre esteve certa e é hora de baixar a bola. Posso jogá-la, arremessá-la – mas pra onde? Pra quem? ...tem muita gente jogando comigo e que já me jogaram a bola antes e não seria certo, nem moral devolver. Eu poderia jogar a toalha no chão mesmo, mas como eu já falei antes, eu não gosto das realidades nas quais eu sou inserido – nem das minhas e nem das dos outros. Não quero mais grama verde, mas feno. Apenas feno. Eu urgentemente preciso de feno, mas preciso plantar porque, como disse, estou com fome. E por enquanto é isso que sinto (ou ao menos acho que sinto) – já fui muito longe pra desistir.... mesmo porque desistir não é tão fácil quanto parece... ah... eu me odeio!

7.4.07

Dança da Solidão

...e foi quando me deu vontade de chorar. Eu me entreguei, mas o choro não veio. Acho que eu não sou capaz de genuinamente sentir porque eu sou analítico até quando tento ser espontâneo. Eu cantava "We've Just Began", dos Carpenters e eu me lembrei de um número de dança que eu e a Érica Gonçalves estávamos produzindo. Eram meados de 1993 e ela queria fazer algo com "La Isla Bonita", da Madonna... Curioso... Agora eu me peguei tentando compreender como, na minha cabeça, uma série de fatos estava concatenada e só agora eu me dei conta de que as ocorrências não são como eu as imaginava... Pois é, eu pensei que o número tinha sido em parceria com a Jaqueline, mas não. Na verdade eu nem sei com quem eu dancei. Na verdade eu não dancei. Calma! Deixa-me explicar: Bem, como eu disse, a Érica queria usar "La Isla Bonita" e por isso eu emprestei o VHS do "Girlie Show" - de onde saiu grande parte da coreografia. Acontece que eu tenho as idéias e depois eu me dou mal com elas porque eu insisto tanto em fazer as coisas do meu jeito que eu me envolvo de maneira tão intensa que eu não sei mais onde sou eu e onde e o projeto. Pois bem, teve um momento em que eu dei conta de que eu estava ensaiando para dançar diante da Escola toda, numa danceteria que fora alugada só pra esse evento. Claro que não éramos o número principal, mas eu me dei conta de que eu (eu, gente... logo eu!), eu ia dançar. E eu só me dei conta disso uns poucos dias antes da performance, quando, então, eu queria desistir. Não preciso dizer que foi uma comoção por parte das meninas. Eu quis desistir sim, mas eu fiquei com mais medo de provocar uma perda intencional do que um fiasco. Mas calma! Eu não sou tão altruísta não: eu só dancei porque as meninas ameaçaram mudar o numero se eu não estivesse presente (se elas dissessem que não dançariam, eu até aceitava, mas mudar minha coreografia era demais pra mim...) quando elas se apresentassem. Bem... não sei como eu estaria hoje se eu não tivesse dançado, mas esse número ainda é um dos momentos que sempre me vêm à mente quando eu não estou fazendo nada, e rio, sozinho, de vergonha – e volto pro chão! A apresentação não era para ser nada demais (...e não foi mesmo, claro – era muito amadorismo e vontade de chamar atenção). O problema veio foi anos depois quando me disseram que eu dançava mal. Ainda me lembro que eu gostava de dançar, mas alguém me disse, bem naquele auge da Lambada, que eu era completamente sem jeito, e a música fade out e eu me afastei da comemoração. E foi numa das comemorações, Natal, talvez, na casa do meu avo, em Caratinga – e depois disso eu nunca mais quis dançar. Eu me lembro também de uma vez em que a minha mãe não queria que eu dançasse com as meninas, na garagem de casa – ela queria que eu brincasse na rua com os outros meninos – mas o problema é que eu nunca gostei de brutalidades: desde pequeno eu amo a arte, mas do meu jeito de interpretá-la. Sim.. foi isso... Depois desse dia em que eu dancei diante da escola eu nunca mais dancei. Alias, dancei sim, mas pra mim – de olhos fechados e fazendo de conta que eu estou sozinho. Às vezes nem música eu escuto quando danço... na verdade talvez eu dance mal mesmo porque eu quero chamar atenção... na verdade, eu faço de tudo pra chamar atenção: eu erro, principalmente. Então, talvez, dançar mal seja uma maneira de chamar atenção pra mim, no fim das contas. Mas não são erros intencionais, na maioria das vezes. Grande parte dos meus erros é inconsciente mesmo, e eu só dou conta quando me pergunto pelo porque de errar uma coisa tão banal, tão besta, tão maçante. Além de tudo, acho que eu erro também porque eu esqueço... como por exemplo, na Inglaterra, depois de ver que eu não tinha chance de ser contratado com o meu currículo, eu omiti dados (muitos, aliás), prometendo pra mim mesmo que eu esqueceria que tinha feito certas coisas na minha vida – e esqueci mesmo. Por exemplo, quando, numa recente entrevista, a gerente da loja onde trabalho atualmente me perguntou o porque de eu dizer que eu seria uma grande aquisição para a equipe (na verdade eu usei um termo mais como “único”, “inigualável”), e eu me lembrei, por um momento, do meu passado, como num filme diante dos meus olhos. Eu me senti personagem da minha memória – em vez de protagonista. Daí, quando eu lembrei que tinha que esquecer, falei qualquer coisa idiota da qual eu não me lembro mais, e ficou por isso mesmo: eu não respondi.

27.3.07

E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida.


(Adoraria ter sido eu o autor, mas o texto foi feito pela Rita Apoena)

17.3.07

Não quero!

Sorvi a coca-cola ruidosamente olhando com rabo-de-olho para a mesa ao lado. Eram uma família bonita de negros orgulhosos. Eram meio cafonas, para ser sincero, mas orgulhosos. Houve um momento em que o menino furtou uma batata do prato da sua irmã mais nova e ela começou a chorar. Eu estava tão vidrado na vida daquela família que, por um segundo, quis proteger meu prato de batatas também – mas resolvi que apenas as comeria. Levantei-me para me servir de mais refrigerante quando notei que a garotinha já não chorava mais, e comia o mesmo frango que eu comia. Senti-me unido a ela por um sengundo... Mas era o mesmo que o Izalty comia também – e provavelmente o mesmo que a outra metade do restaurante, mas eu me identifiquei com aquela menina, que já não chorava mais... Ela já não chorava mais e comia frango com toda delicadeza do mundo, talvez como se ela se sensibilizasse com a textura. Ela olhava pra cima enquanto comia, e entre uma garfada e outra, ela sorria pro irmão com aquele sorriso falhado típico de quem troca de dentes, e então ela pegou uma de suas batatas e ofereceu pro seu irmão, que aceitou sem dizer anda - apenas abrindo a boca orgulhosamente. E ambos trocaram sorrisos. E eu sorri, feliz com sua cumplicidade, imaginando-me servindo batatas pra Lu. Foi naquele instante que eu realizei como era ser parte da platéia, e me inquietei. Foi naquele momento que eu percebi que eu vivia uma vida anônima. Fiquei assustado com o fato de que fazer parte do rebanho aniquilava com os meus planos autodestrutivos. Senti medo quando percebi que fazer parte da platéia me mantinha vivo!

Divagações nº I

Fazia tempos que eu não odiava Sócrates, mas o sentimento voltou com força total ontem quando eu vinculei felicidade com esperança. Na verdade odiar Sócrates não resolveria o meu problema porque, no fim das contas, a suas idéias foram compradas: não foi ele quem as impôs. E mesmo se tivesse imposto, como eu convenceria a maioria? E quem disse que eu preciso convencer a maioria? Quem disse que eu quero? Não, não quero porque eu seria tão preconceituoso quanto eles, ao impor minha observação – que é minha, e não precisa ser de mais ninguém pra ser verdade. E verdade, pra mim, não é nada mais que observação – não observação no sentido vulgar, como Sócrates idealizou, porque toda experiência é sensível! Toda. Resta, ao fim, o que não se experiencía, e por isto tem-se que, de alguma forma, confiar no rebanho. Mas como, se eu não quero compartilhar das suas verdades? Sou obrigado. Sou obrigado a ser um ser social! Um ser social que não consegue ser sincero nem consigo mesmo: eis outro ser social!

16.3.07

A Felicidade....

Somente agora eu entendi que a felicidade vicia. Eu sempre acreditei que toda pessoa seria suscetível a um tipo de droga: uns viciam-se em álcool, outros em cocaína, outros em drogas mais pesadas. Eu já experimentei de um quase tudo, mas parei antes que eu encontrado pela droga que finalmente me viciasse... mas eu achava que apenas as drogas viciassem – ou, quem sabe, eu tinha um conceito muito estereotipado de drogas?

...até então eu nunca tinha pensado na felicidade como uma droga! Sim, droga, porque proporciona prazer em doses devidamente provocadas, causa dependência e requer quantidades cada vez mais intensas para proporcionar o mesmo prazer. E por causa disto vive-se perigosamente porque muitas pessoas acreditam que o objetivo da vida seja ser feliz... mas esse assunto já me cansou. Já tenho o meu conceito de felicidade. Só que agora, não sei ainda muito bem como, vou ter que colocá-la no mesmo patamar que a esperança.

Ai... eu tinha outra coisa completamente diversa do que eu escrevo agora, preparada em minha cabeça. Queria falar de... ah, não sei mais sobre o que eu queria falar. Acho que “a felicidade” se apossou de mim e quer ser examinada outra vez. Sim, outra vez. Interessante como esse tema me persegue e cada vez mais me surpreende! A felicidade está sempre me procurando pra conversar... Opa! Calma lá! Isso ta ficando sério porque eu sempre acreditei que a felicidade fosse um objetivo humano, uma coisa boa demais – mas agora estou outra vez perto de Nietzsche! Se não e a felicidade que eu devo almejar, o que será? Será que o problema com ela e que eu considero a felicidade boa demais? ...mas pra mim também?!


7.3.07

Outonando (ou: Primaverando).

Se me perguntassem como eu estava há uns dias atrás, eu não sei o que diria, mas não seria muito otimista. Hoje, no entanto, eu amanheci. Eu senti orgulho de mim. Não digo que eu tenha voltado a contemplar à vida, mas não mais estou mais outonando (gostei de criar esse verbo!), mas talvez primaverando. Uma das coisas boas foi o fato de eu compreender para onde foram as coisas que eu já aprendi. Para onde? Não sei... sei que as esqueci. Aprendi que é preciso aprender, aprender, só pra depois esquecer. Acho que estou descobrindo que só se é livre depois que se esquece o que aprendeu. Sim, porque depois de uma jornada, não somos capazes de ser a mesma pessoa de antes – torna-se algo novo. Algo novo que não esquece, na verdade. Ou se esquece sim, talvez, mas só pelo prazer de achar de novo, e de novo, e ficar feliz porque lá no fundo, já se sabia. E até disso eu já sabia – pro meu espanto. Mas descobrir o que eu já sabia não me deixa feliz – eu já teria previsto essa possibilidade, ou mesmo o prelúdio dessa felicidade, já que eu estou tão clarividente hoje... Eu fiquei incomodado com essa palavra que acabei de usar: clarividente. Não gostei, eu acho. Ao contrario de “aventureiro”, que foi como um colega me chamou, num scrap por ocasião do meu aniversário. Quer dizer então que prefiro ser aventureiro a ser clarividente? Mas, quer dizer, no fundo, não e a mesma coisa? Os dois não lidam com o desconhecido, com a novidade? com a possibilidade?! Olho fixo pro teclado. Quero fotografar o que se passa pela minha cabeça. Mas é impossível: enquanto eu tentava fotografar o meu estado de espírito, fui pego por uma ansiedade, uma excitação de desafio – e a minha musa fugiu, de repente. Não. Definitivamente ela não fugiu – eu que não quero dizer: é meu e somente meu o que aconteceu. Mas para não dizer que sou egoísta, vou deixar um espaço em braço pra que você também possa ficar a sós com a sua musa. Sim, intimidade é isso sim. Quero ficar sozinho. Intimidade é a vontade de potência!










[enjoy the silence]








24.2.07

Inferno Astral - Parte II: Amém

Saí com pressa do banho porque eu tive um insight ao chuveiro, e lá dentro eu não podia escrever. Foi doloroso! Não... foi cruel. Cruel como adiar o gozo. Fiquei marcando as idéias, passo-a-passo, como numa aula de dança. Mas não era a mesma coisa: as idéias desciam pelo ralo junto da espuma, em espiral, confusas. Confusas como elas nasceram dentro da minha cabeça. Eu me vi com o sabonete na mão direita parado sobre a barriga e com a boca entreaberta e a água escorrendo pelos cantos da boca. De vez em quando a água me cegava quando entrava nos olhos, e ardia. Outras vezes eu sentia o gosto adocicado do sabonete dentro da boca, mas não tão doce a ponto de evitar que eu divagasse tentando eleger o momento em que eu mais fui feliz na vida. Avaliações desse tipo são muito comuns nas vésperas dos aniversários – pensei, mas o que me intrigou foi o fato de que eu me pegava re-exercitando um tema que eu tinha superado: felicidade.

Acontece que enquanto a água escorria pelo ralo eu percebi que eu não tinha superado o tema. Sim, superar é a palavra correta porque não se esgota o que é etéreo. Eu sei que vez ou outra eu poderia reavaliar meus conceitos, mas não com tanta freqüência. Achei que fosse assim... Foi então que me ocorreu que eu não tinha superado o tema, mas apenas pensado que o fizera. “Onde foi que eu errei?” – quis saber. Pensei onde eu poderia ter errado, mas o que vinha à tona eram apenas imagens desconexas de épocas em que eu não era eu mesmo. Épocas em que eu sabia o que eu era, mas não era, no fim das contas. “Mas quem sou eu?”, perguntei-me, e a resposta foi a certeza de que eu só fazia a reavaliação da minha vida porque eu não sei quem eu sou agora. Só agora me ocorreu que eu nunca soube quem eu sou. Eu me satisfazia identificando o que eu estava, mas nunca me preocupei tempo suficiente para entender quem eu era e descobrir o nome pelo qual eu me chamo, em vez de Leonardo, que é como as pessoas me chamam. Mas, sim, sem identidade. Perdido dentro de mim como apenas eu poderia estar – sem capacidade nem para me identificar com uma imagem “qualquer”, porque senão eu estaria me encontrando, de alguma forma. Outro dia ouvi dizer que perder-se também é um caminho...

Eu me lembro bem de estar entediado e em busca de desafios, mas eu estou enfrentando muitas dificuldades para me encontrar de novo. Infelizmente o que eu já fui, o que eu achava que fosse, ou o que eu queria ser – nada disso tem importância agora. Eu até grito, mas quando me ouvem eu fico quieto pra não me encontrarem... e mesmo quando eu não quero, eu me saboto. Eu não sou um adulto em corpo de criança a quem é dada uma segunda chance de recomeçar, usando a sua experiência – sim, eu cheguei a acreditar que isso fosse verdade. Mas não: eu sou uma criança em corpo de adulto que é amaldiçoado com o fardo de ser novamente o que ela mais abominou ser – uma criança.

Não, eu não quero ser uma criança outra vez! Que tipo de lição seria essa que eu tenho que aprender agora? Quando foi que esse maldito anjo me ouviu dizer que eu queria ser diferente? Quando foi que ele falou amém? Será que esse anjo idiota não percebe quando estou fazendo apenas drama? Por que a verdade tem que me ser jogada na cara todas as vezes? [pausa] De repente eu me peguei horrorizado com a pergunta que eu acabei de fazer! Estou pasmo! Será que eu sou tão idiota como eu soei agora? Quem mais me enxerga assim, meu Deus? Anjo, obrigado!

Vêem? Enquanto eu escrevo já vou me consolando e me abastecendo de fé. Às vezes não sei se eu não tomo a iniciativa porque eu não serei mencionado no jornal... às vezes acho que não o faço porque meu pai me fez prometer que eu me cuidaria... outras porque eu sou apenas uma criança no fim das contas... eis então que o que me resta pra distrair da vergonha que sinto por não ser sincero comigo é pensar em coisas que podem ser mencionadas em voz alta – sem vergonha, como: quer dizer então que as coisas que eu esqueci que sabia não se perdem: elas apenas precisam de reavaliações até ficarem satisfatoriamente polidas? ...e assim, mais uma vez, eu me consolo e sublinho o que eu posso dizer em voz alta.

11.2.07

Strike a Pose!









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10.2.07

Inferno Astral - Parte I: Objetivo vs. Propósito.

Eu não gosto de frases conclusivas porque elas me prendem num universo finito de possibilidades estéreis, já que pra qualquer direção que eu me vire, eu morro. Por isso eu me escondo nas reticências... elas me dão uma pausa pseudo-“ad aeternum” para eu me decidir o que (se) fazer do pensamento... mas quando a pausa acaba, eu me levanto. E eu acabei e me levantar.

Na verdade, tive forças pra sair da cama porque eu precisava escrever. Eu me peguei alerta mas ainda de olhos fechados, lutando contra um sono que me impedia de dormir, já que sonhar me é piedoso: sonho demais acordado, e, por isso, quando durmo, descanso dos sonhos. Era mais uma daquelas vontades emergentes, e por isso mesmo, urgentes de escrever e vomitar um não-sei-o-quê que me entalava a garganta, mas não me deixava vomitar. Nunca consegui provocar vômito. De vez em quando me pego diante do espelho olhando pra garganta e imaginando quantos centímetros de dedo eu ainda precisaria pra alcançar um local eficiente, já que nem o cabo da escova de dentes não faz o trabalho. Eu estava cansado de repetir que “eu decido se vou ficar feliz ou se vou ficar triste”, na esperança de que eu acreditasse. E por isso esse pensamento se repetia com força determinada e destemida enquanto ele me dava vontade pra esquecer dos problemas e focalizar na análise da frase, que já era mais sintática do que de auto-ajuda... Mas não adianta, ainda estou sob influência da Laura Brown. Deus, será que depois do filme eu fiquei preso a ela, ou será que o filme apenas deu um nome a minha angústia? Vou escrever a ermo e tentar me decifrar depois, se for possível.

Agora a pouco a Lu me falou que a Inglaterra faz bem pra mim... que eu fico mais bonito. Como eu devo entender isso? Eu quero ser bonito? Claro que ela teve a melhor das intenções, mas estar (ou ser) bonito e tão importante? Por que eu me importo tanto com aparência? Terá ela falado que eu estou bonito porque eu não sou bonito? Ou ela simplesmente quis dizer que ela também queria vir pra Inglaterra e sair da masmorra? Minhas fotos vendem uma imagem sincera do meu reflexo? Ah... Por que eu não consigo ser plenamente feliz? Será que eu me divirto me culpando, porque algo não vai me fazer bem? Quer dizer, eu me divirto mais me pré ou pós-julgando? Posso não me sentir bem querendo ser bonito, mas eu me envaideci todo quando me disseram que brasileiros são atraentes (mais uma vez aparência). ....ser brasileiro nao dava margens para exclusão, se fosse verdade a premisa. É que eu me apego com unhas felinas às ultimas fibras da brasilidade dentro de mim. Acho que o Brasil é o que resta de mais primitivo em mim... E eu não quero me perder por completo. Algo tem que ser meu, enfim. Tem algo em mim que eu amo e não quero perder. Tem algo dentro de mim que me baseia, e eu não posso perder, sob risco de ruir! Nunca se sabe qual dos nossos defeitos sustenta todo o nosso ser, afinal... Mas e quando for hora de me despedir? – nada é eterno! Quem eu vou ser depois de não ser mais quem eu (acho que) sou? E como eu vou me lembrar, quando velho, do meu eu de agora?

Eu me peguei pensando em como é pesado imaginar um propósito pra vida. Uns inspiram os outros, e são personagens principais, mas outros servem de subterfúgio e plano de fundo para a ação dos primeiros. Quem sou eu nessa história? Em que pensa quem tem experiência de vida? Como ficam as marcas do tempo quando ele passa? Eu tenho 27 anos e vivi menos que a pena máxima de prisão no Brasil, mas como deve ser a cabeça de quem viveu mais que isso? Um dia além do que me foi dado me excita... um minuto extra me supera! Sim, pode ser ao menos um minuto além! Sim, claro, os eventos mais importantes sobrepõem os menos importantes, mas qual será o meu critério quando eu envelhecer? Trarei questões subliminares à tona, ou o quê? Por que eu ficarei triste no futuro? Qual é o propósito da minha vida? Ou mais “facilmente” falando: qual é o meu objetivo? Como deve ser perceber que se mudou? Eu me sinto o mesmo desde quando eu tinha sete anos de idade. Eu apenas adquiri conhecimento, mas eu ainda sou o mesmo. Como deve ser a sensação de que não se é mais o que se é?

Eu me lembro de uma despedida marcante. Algo como uma apoteose, quando eu fui embora de Manaus e a Dani, dormindo, levantou-se da cama com os olhos ainda fechados, enrolada nos lençóis, me abraçou e beijou, e depois voltou a dormir. Ela fez mais em um beijo do que todos fizeram em uma semana. Na verdade, minha viagem a Manaus se resume naquele beijo de despedida: sincero, impessoal e definitivo. Acariciava e me confortava de uma distância segura, sem prometer mais do que se pode ou tem intenção de cumprir. Aquele abraço foi melhor do que a sensação desoladora de sair do carro e, depois de três passos, virar-me para trás e não ver mais ninguém. Sensação de sonho... Não sonho no sentido de esperança, mas no sentido de solidão... solidão sim, porque no fim, não passou de algo dentro da minha cabeça. Aquele abraço se tornou o objetivo da minha vida. Foi a partir dele que eu aprendi que era importante deixar ir embora. Só não aprendi como...

26.1.07

Girl, Interrupted: Quotes

Susanna: [narrating] Have you ever confused a dream with life? Or stolen something when you have the cash? Have you ever been blue? Or thought your train moving while sitting still? Maybe I was just crazy. Maybe it was the 60's. Or maybe I was just a girl... interrupted.
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Susanna: I know what it's like to want to die. How it hurts to smile. How you try to fit in but you can't. How you hurt yourself on the outside to try to kill the thing on the inside.
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Susanna: [narrating] When you don't want to feel... death can seem like a dream. But, seeing death - really seeing it... makes dreaming about it fucking ridiculous.
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Georgina: Lisa? Is Daisy really getting out?
Lisa: Yeah, she coughed up a big one.
Susanna: But how could - I mean she's... *insane*.
Lisa: Yeah, well that's what ther-rape-me's all about. That's why fuckin' Freud's picture's on every shrink's wall. He created a fuckin' industry. You lie down, you confess your secrets and you're saved. Ca-ching! The more you confess, the more they think about settin' you free.
Susanna: But what if you don't have a secret?
Lisa: Then you're a lifer, like me.
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Susanna: I'm ambivalent. In fact that's my new favorite word.
Dr. Wick: Do you know what that means, ambivalence?
Susanna: I don't care.
Dr. Wick: If it's your favorite word, I would've thought you would...
Susanna: It *means* I don't care. That's what it means.
Dr. Wick: On the contrary, Susanna. Ambivalence suggests strong feelings... in opposition. The prefix, as in "ambidextrous," means "both." The rest of it, in Latin, means "vigor." The word suggests that you are torn... between two opposing courses of action.
Susanna: Will I stay or will I go?
Dr. Wick: Am I sane... or, am I crazy?
Susanna: Those aren't courses of action.
Dr. Wick: They can be, dear - for some.
Susanna: Well, then - it's the wrong word.
Dr. Wick: No. I think it's perfect
---
Susanna: [reading from a book] "Borderline Personality Disorder. An instability of self-image, relationships and mood... uncertain about goals, impulsive in activities that are self-damaging, such as casual sex."
Lisa: I like that.
Susanna: "Social contrariness and a generally pessimistic attitude are often observed."
[pauses]
Susanna: Well that's me.
Lisa: That's everybody.

24.1.07

Vô Cardoso

Sim, meu Avô.

Hoje faleceu meu Avô (com "A" maiúsculo.)

Eu não posso dizer que eu tivesse um avô perfeito, daqueles de história do Monteiro Lobato... Aliás, meu avô não podia ser a Dona Benta, e Monteiro Lobato nunca escreveu sobre um avô. O fato é que o vô Cardoso não foi mais presente na minha vida porque eu não dei muita intimidade para ele: eu nunca estive perto tempo suficiente pra tal, mas a cada conversa que tínhamos, eu me encantava com a sua sabedoria.

Sim, era um homem sábio. Sábio demais, devo admitir. Era também um homem justo, sério e, entre milhares de outras qualidades, honesto também. Meu avô era daqueles homens dignos de filme. E eu digo isso sem medo de soar demagógico, porque todos os netos concordam com o fato de que o vô Cardoso era “ótimo”, “gente boa”, e outras coisas mais que não se atribuem a um avô, mas a um amigo. E a opinião de que ele era um homem sério não vinha somente da família: eu tive diversas oportunidades de sentir o respeito que as pessoas tinham pelo homem imortal que ele é! Que qualquer um experimente mencionar o nome do José Cardoso Dias na região de Caratinga, que um tapete vermelho ornado de rosas será estendido diante de si. Mas o orgulho do meu pai, por si só, ao falar do vô Cardoso era motivo mais que suficiente pra eu idolatrá-lo também. De peito estufado e olhos úmidos meu pai contava milhares de vezes as façanhas da sua infância e juventude – sempre com meu avô intermediador e justo nas arestas. E porque se meu pai, que é o meu modelo de perfeição, o idolatrava, eu o amava também, e ponto final. E acontece que eu amo o vô não por causa do meu pai, mas pelo homem contemporâneo e de cabeça cheia de idéias vanguardistas que ele foi.

Houve uma época em que eu não gostava de ir à casa dos meus avós, e eu mesmo não sabia o motivo. As férias em Caratinga sempre eram interrompidas pela carranca do meu pai, por eu não gostsar de visitar os seus pais. E que a verdade seja dita: eram muitos os netos. Muitos netos pra disputar a atenção de apenas dois avós. Sim, era ciúme... E tempos depois eu fui surpreendido pelo entendimento de que eu também morava no coração deles. E no começo eu pensava que era querido porque eu fosse um dos netos “doutores” na família ou porque eu era filho do Cardosinho, ou Zé Baixinho – como chamavam meu pai; mas não: aquele homem me respeitava também. Ele me respeitava, e eu me encho de orgulho por o meu avô, o Homem que ele era, me tratar como igual!

Engraçado... Toda a minha vida eu fui chamado de Catatau. Diz meu pai que meu avô media minhas perninhas usando as mãos, palmo a palmo, quando eu era bebê, e ria-se, imaginando se eu alcançaria ao menos do tamanho do meu pai. E uma vez, meu pai, vendo que não mais adiantava brigar, me colocou contra a parece e quis saber o porquê de eu não gostar de visitar meus avós. Eu, meio sem saber – sem graça ao ver meu pai desarmado, disse que era úmido demais o quintal, e que tinha mosquitos que me picavam e me deixavam empolado. Mas somente anos depois eu percebi que a casa era úmida sim, mas o real motivo para eu não gostar de visitar meu avô era por causa do meu horror ao, certa vez, constatar que eu já era mais alto, ao menos fisicamente, que o mais alto dos homens, na concepção do meu grandíssimo pai.

Vai com Deus, vô Cardoso, e aproveita o seu jeito mansinho e jeitoso de conversar, e vai falando aí com São Pedro pra deixar a gente entrar quando for a nossa hora. E, pra não perder nunca o costume: a bênção, vô Cardoso! Pra sempre, vô , a sua bênção...

O que estraga a felicidade é o MEDO!

Eu estou aliviado! Posso, enfim, voltar a respirar... E recito:

“Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia!”
Acabei de me re-descobrir, recuperar minhas forças: passou a escuridão! Aceitei que a vida não pode ser vivida, sem os riscos que acompanham. E, com isso, descobri que a história só faz sentido pra quem a viveu, ou vive. Quer dizer, antigamente eu acreditava que a História existia para que não fossem re-cometidos os erros do passado, mas essa é uma concepção ignóbil. Egípcios, Sumérios, Gregos. John Kennedy, Jesus Cristo, Marilyn Monroe. Bomba atômica, Avião, Acarajé: cada um desses signos só faz sentido pra quem os consegue viver. A História somente faz sentido pra quem a vive, meu Deus! Eu não nego a necessidade da História, mas a obrigatoriedade de utilizá-la! Cada um dos elementos da História só faz sentido para quem, mesmo que indiretamente, já os experimentou – para os outros eles não passam de mera especulação. Isto é, cada um deixa seu legado, mas somente faz (bom) uso desse legado quem o quiser utilizar. Pra que viver a vida calculando cada passo, se, no fim das contas, tudo é quântico? Pra que viver uma vida de status, se não se pode comê-lo, vesti-lo, vê-lo?

Eu não quero ser personagem da minha história: eu quero ser a minha própria história! Quero que a minha vida faça sentido pra mim... e só pra mim! (se alguém quiser entendê-la, que tente – não vou dificultar e nem facilitar: vou apenas viver!) Eu quero experimentar as coisas quando delas eu precisar, e não porque alguém já passou por um caminho parecido e diz que já prevê como as coisas podem terminar. Obrigado, mas não quero conselhos! Eu não quero uma vida analisada e cheia de marcos através dos quais eu possa contar os anos. Pra ser sincero eu quero mesmo é uma vida cheia de vida, e não de fatos. Quero acertar, mas quero errar também, mas quero ter orgulho dos passos que eu der sozinho, sem depender de uma terceira perna que em apóie no chão.

Uma vez eu quis ser famoso – eu quis ter uma terceira perna... Mas eu não sei o que é a fama porque eu nunca a experimentei como eu imaginei que fosse. Claro que, olhando pra trás, eu tive algum reconhecimento e fui seduzido pelos minutos que a tive em minhas mãos... Engraçado: só agora eu percebo que não foi a fama quem me seduziu, mas o tempo em que eu a senti de perto. E a fama vicia! Eu não guardei, por exemplo, a sensação de ter ganhado o concurso de monografias na faculdade, mas as imagens que eu fiz da cerimônia. A fama vicia porque se acostuma com atenção – é muito bom ser levado a sério! Eu sempre fui uma pessoa de imagens, mas não porque eu as gostasse de ver – muito pelo contrário: eu sou uma pessoa de memória visual porque eu as uso pra me esconder.

E daí que agora eu estou num lugar onde ninguém me conhece? Nunca foi das pessoas que eu me escondi... é de mim o tempo todo que eu me escondo – e esse eu sempre acho.

21.1.07

172 (ou: Ruínas)

Faz uns dias que eu estou na adorável Inglaterra. Bem, como sempre, uma frase solta me faz pensar em algo que, de uma certa forma, se conecta, no fim (mesmo que forçadamente)... mas estar na Inglaterra me fez lembrar que os esquimós têm 12 ou 13 palavras que designam tons diferentes de branco e já que eles podem, por que eu também não posso dizer que existem tipos diferentes de frio? Certo, certo.. nem tão polêmica é a minha afirmação, mas eu queria era dizer que Turin está mais fria do que aqui – mas não é o mesmo tipo de frio não! Faz um frio seco em Turin, e frio úmido aqui em Reading. Mas eu não vim falar sobre o frio daqui ou o frio de lá – vim falar de decepções – que também remete a “frio”.
Ainda não entendi a Inglaterra. Essa falta de postar se resume sim, nisso. Não escrevo porque não tenho, simplesmente, o que escrever. De vez em quando eu sinto alguma coisa, mas esse instante fugido só se revela ou dentro de uma danceteria, ou num momento de vento muito forte – talvez só pra eu não poder anotar: daí eu guardo na memória, mas o instante não mais está lá. Penso que isso se deve à Seleção Natural de Darwin, em que os instantes mais fracos sucumbiriam diante dos mais fortes. Portanto, se a falta de sensibilidade diante da Inglaterra pode estar ligada a um sentimento interrompido, talvez – como num tratamento psicanalítico, se eu trazê-lo à tona, ele se dissolva e dê lugar a outros, permitindo que eu... ah, enfim, que pare de me enervar! O que não me foge da memória a lembrança das limpezas no meu quarto quase que semanalmente, pra satisfazer a minha necessidade de organização na vida. Bem, eu inaugurei, conscientemente, a minha chegada à Inglaterra com uma big faxina na casa do Izalty – junto dele, claro. Mas antes de aspirar o quanto, tiramos o pó do aspirador – estava sujo demais! E na mesma tarde me peguei diante da Clarice me perguntando:

“Se recebo um presente dado com carinho por uma pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais a gente – como se chama essa mágoa? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota, como se chama o que se sentiu?”

Meu sábio pai uma vez me disse que apenas te decepcionam as pessoas em quem se confiam. Fiquei perplexo, mas depois de examinar bem, vi que era verdade porque nunca se dá oportunidade para um estranho te decepcionar. E acontece que o tombo é ainda maior quando não se tem nem coragem de dizer como foi o tombo. Só consigo dizer, sem reviver o trauma, que o meu coração está em ruínas. Também estou decepcionado com o fato de que “nenhum” restaurante fabrica sua própria comida aqui em Reading. Aliás, fabricam sim, mas industrialmente! Nada é, como se diz, feito em casa. E o pior: por conta dessa industrialização, os funcionários da cozinha são justamente aqueles que ou não falam Inglês ou são ilegais no país. Isso significa que o meu sonho de trabalhar com gastronomia de verdade vai ter que esperar um pouco mais de tempo, até eu ter condições de ter meu próprio restaurante...

(...)

Fiquei bobo, de repente! Calma lá! Já estou desistindo - foi isso que eu entendi? [pausa para água] Andava de um lado pro outro pelo quarto, com um copo d’água passando de mão em mão, boquiaberto e fiquei com medo de ter desistido! Mas e se, em vez de desistir, eu estiver mesmo é chegando à conclusão de que esse “sonho” era só um pretexto? Acontece que eu acreditei nesse sonho! E eu me confundi: não sei se essa (pseudo)desistência é ou não é saudável. Digo, será que eu deveria adiar o que eu disse que vinha fazer aqui por conta dessa dificuldade? Ou será que todo tempo eu amava o que eu fazia, mas queria mesmo era fugir, e passei a acreditar demais no motivo que eu criei. Será mesmo que eu enganei até a mim mesmo? Não... eu definitivamente queria mais. Ou simplesmente não queria mais o que eu tinha – tive certeza dessa parte quando eu visitei Valadares e senti pena dos meus pais naquela cidadezinha, pena dos meus amigos por fazerem a mesma coisa sempre e sempre, como vaquinhas de presépio. Mas isso justifica o fato de eu ter vindo pra tão longe? Ou serei eu a vaquinha de presépio? Não seria mais fácil simplesmente mudar de cidade, ou de Estado? Não... eu queria a cidadania. Na verdade, penso que a própria ânsia de oficializar a cidadania me desgostou, aos poucos, da minha vida. Acho que agora eu entendi... a pergunta-chave é: qual a vantagem de se ter cidadania Européia, vivendo no Brasil? Claro que essa é uma pergunta essencialmente retórica na qual eu embuto outra forma de sofisma – ao menos essa é a intenção. Ao menos agora eu me sinto como, quando eu tinha meus 5 ou 6 anos, eu queria, porque queria tomar leite de coco. Cozinhavam uma peixada, e eu me apaixonei pelo aroma do leite de coco. Pedi um pouco e me deram uma colherada. Pedi mais e ganhei outra colherada. Pedi tudo, e com paciência de relojoeiro venci a cozinheira que me deu toda a garrafinha. Acontece que eu não queria o leite de coco: eu só queria vencer a argumentação. Até que, não sei se por perceber minha falta de jeito com a garrafa na mão, ou por simples raiva de ver uma criança sendo mimada, alguém – sem nem saber, salvou-me daquela garrafa odiosa, daquele elefante branco, destinando-a ao peixe. Mas quem me salva agora do meu passaporte?

7.1.07

Crash! Boom! Bang!

Eu escrevo usando os verbos no passado porque eu costumo sobreviver às minhas regressões. Elas são, inclusive, até saudáveis - senão, auto-analíticas, pelo menos. Mas tem algo que ainda não é passado, não é presente, mas eu também não garanto que vá acontecer me preocupando… estou num impasse porque eu costumo pensar que Deus se dá ao desfrute de não concordar com nós, humanos, e que, por exemplo, o fim do mundo não vai acontecer enquanto um único mortal pensar que ele está próximo; daí, quando ninguém mais esperar, crash! Boom! Bang! Mas, como eu ia dizendo, eu brinco de pensar que o que eu antecedo nos pensamentos geralmente não acontece - até aí tudo bem, mas eu só me dava conta disso no futuro, isto é, quando a adivinhação já era passado. Nunca tive dom para cartomante, mas desta vez eu me vi na pele da Macabéa quando me imaginei, no fim de toda essa aventura, depois de tanta coisa feita, tanta gente vista, tantas coisas vividas, de tantas expectativas: se o avião caísse e todos no vôo morrêssemos, ou se eu fosse assaltado nas ruas da Inglaterra e fosse morto à tiros, por exemplo, justo agora que não mais faz sentido não esperar pelo melhor... bem, pode ser autoproteção, já que eu acredito que o que eu antecedo não acontece – isso significaria que o meu medo de alturas e o meu medo de lugares ermos fossem poupados no meu juízo, mas e o que eu não tiver imaginaçao para anteceder?
Não posso dizer que esteja com [muito] medo, talvez um pouco [demais] de expectativas, mas sinto algo como uma sensação de despedida, um afastamento pseudo-inconsciente das pessoas de quem eu gosto, a fim de perder alguns vínculos e que nem eu e nem eles sofram. Contraditório isso que se passa na minha cabeça, apesar de eu não ser conhecido pela minha limpidez de pensamentos... mas eu nunca havia me aventurado a prever o futuro, minha gente! E o pior: desta vez eu penso que tem alguem lá em cima pagando pra ver o que acontece, já que agora eu que faço planos.

P.S.: Peço ajuda a certos leitores que aqui especialmente convoco. Convoco extraordinariamente aqueles que sabem o que significa Exu, assim como aqueles que não sabem, e pensam que, em vez de uma entidade, seja uma pessoa... sera que devo confiar a estes o meu futuro?

4.1.07

Geodésias

Eu meio que sempre fui levado pela corrente porque não sabia o que eu queria. “Siga o fluxo!” – diziam, e eu seguia o fluxo. Silenciosa e mansamente eu seguia o fluxo. Cresci olhando sempre pros lados com medo de ser julgado, e por isso seguia o fluxo – ensinaram assim pra mim, e eu confiante e humildemente acreditei no pseudo-poder de julgamento do rebanho. Eu me entregava a um mundo muito mais amplo do que as minhas, até então, mais desvairadas pretensões, sempre a fim de seguir o fluxo... sempre o fluxo... fluxo... flux... Hoje eu não sei se me arrependo ou não por ter seguido o fluxo porque estou feliz com o que estou. Estou sim, mas não me oponho a pensar nas diversas realidades que poderiam ser o hoje, se eu não tivesse dito sim para determinado evento. Um dia desses, por exemplo, eu pensei na morte de uma das minhas tias, e em parcerias infelizes. Pensei que poderia insistir com minha tia pra que ela fizesse outras vezes a mamografia, e, para as parcerias, pensei em não estar em determinados lugares em certas horas, ou em simplesmente dizer alguns nãos de vez em quando, mas fiquei perplexo com os possiveis efeitos colaterais. Sabia que eu não poderia viver indo e vindo no tempo, e vi que o que é realmente sensato é dizer adeus para o passado, e ver o eu de ontem, cada vez mais distante do eu de hoje...

E como sempre, esse tipo de insight me faz pensar desordenadamente na vida, e também desordenadamente percebi o quanto, independente da minha decisão, o meu passado já está distante de mim... como está distante a minha vida em Governador Valadares! Os meus DVDs, meus Cds! A sala de aula, administração, fórum! Enfim, toda uma vida que, de tão distante, ja não provoca qualquer sentimento, a não ser me deixar indiferente... literalmente distante, como se não fosse comigo! Mesmo os meus dentes antes do aparelho estão distantes, na minha memória... eu me lembro, no entanto, do momento em que eu tirei o aparelho ortodôntico e senti, depois de muito tempo, a superficie lisa dos meus dentes roçando a gengiva – era emocionante, mas nem aquela surpresa eu mantive, porque a superficie dos meus dentes é parte de mim outra vez. Acostuma-se com o óbvio – e disso eu já sabia. A novidade veio com a percepção de que o óbvio é facil, apesar de não ter que ser... estranho isso. Lembrei dos amigos da escola, da faculdade, da rua, que me eram indispensáveis, mas que hoje sã quase como se não tivessem nunca existido... muitos deles estão apenas na memória, alguns apenas em fotografias. Esses dias eu me peguei contando a minha performance no ensino médio para o Juninho, e comparando com o que ele contava, e o feedback era engraçado, porque tínhamos base sólida para nos apoiarmos - a memória era um palco amplo para isso. Mas quando eu contei da faculdade, vi que ele ouvia e não sentia nada, porque simplesmente era uma realidade que ele não conhecia, e fui tocado pela sensação de que a escolaridade hoje em dia, pra mim, não faz diferença! Meio que como na infância, em que a diferença de poucos anos de idade era um abismo instransponível... mas depois é nada. Lembro-me de quando eu tinha 7 anos e um colega14... era um abismo de idade nos separando, mas hoje eu com 27 e ele com 34 soa como quase nada... ou não faz diferença porque estamos ambos no que se chama de maturidade, que eu posso definir como o ponto a partir do qual tudo se iguala. Portanto, não é a idade, mas a experiência que conta (ai, como eu estou redundante hoje!). Sim, hoje que vejo que eu abdiquei dos infindáveis anos de estudo e de fila indiana seguindo o fluxo, para chegar num ponto em que eu estou num país estrangeiro dependendo de conhecimentos que eu não tenho onde apoiar! Olho para eles e vejo que os meus diplomas não servem para o que eu quero, me deixando num vácuo escolar digno dos que eu julgava tanto no Brasil por não terem feito faculdade ou seguido alguma linha profissional mais ou menos reta. Mas quem disse que a menor distância entre dois pontos é uma reta, afinal? Besta fui eu em acreditar nisso sem confirmar... e hoje eu levanto os braços e rio gargalhadas altas porque deixei toda uma vida de fluxo semi-reto para trás e, pasmem, sem arrependimento algum! Então eu me divirto imaginando o que a pessoa do meu lado pode me trazer de diferente, pra acrescentar à minha vida. O que me fascina hoje é imaginar o que vai estar distante de mim amanhã, sem perder o contato com o que é realmente importante: o hoje. Ou serão as geodésias, essas desconhecidas! Ah.... o fato é que não apenas as geodésias, mas até o meu organismo é um desconhecido pra mim hoje em dia! Estou surpreso com minhas reações diante de situações das quais eu me via (e ainda vejo, dada a desatualização), reagindo assim ou assado, em que na prática eu ajo completamente diferente. Eu estou mudando e não estou dando conta do meu processo de absorção do já. Eu estou me observando pelo lado de fora, procurando por geodésias no meu processo de crescimento, mas tão absortamente que eu não percebo o que acontece aqui dentro: não vejo as retas. Talvez seja como disse a raposa: “o essencial é invisivel aos olhos”, afinal.

Eu estou sempre me perdendo (ou achando?) e vou seguindo o que me parece razoável – sejam retas ou geodésias... Não posso dizer, de forma alguma, que eu tenho controle da minha vida; eu me sinto num jogo de xadrez, em que nem a peça que eu represento eu sei! Mas acredito que a grande graça nisso tudo é o fato de que eu não sei mesmo das coisas. Talvez, inclusive, se eu não soubesse as coisas que eu acho que sei, eu seria mais feliz, ou mesmo mais aceito pelas pessoas. Mas sei que o conhecimento é um caminho sem volta – o cerebro não se recompacta. Bem-feito pra mim!

Feliz 2007 a todos, e que não apenas este, mas que todo o sempre seja repleto de surpresas agradáveis, realizaçõoes edificantes e amores inebriantes!

é...

22.12.06

Quem tem Medo de Virginia Woolf?

O Léo Heggendorn chegou a Governador Valadares: foi uma festa! Hummm... pelo grau da nossa amizade, eu e o Léo nunca fomos capazes de encerrar qualquer assunto! Havia sempre um gancho mínimo capaz de recomeçar toda a revisão de um tema absurdamente etéreo – algo que, na prática, poderia se resumir num olhar ou num trejeito, ou no acompanhar do vôo de uma mosca; uma coisa tão mínima para os não-iniciados, mas que pode ser destilada e saboreada com o mesmo frescor e a polpa genuína da novidade por horas e horas, e nunca se acabar: assim somos eu e Léo. Acontece que não nos vemos há meses e mesmo sabendo da nossa incapacidade para finalizar, nos demos ao luxo de atribuirmos uma gravidade sóbria e mansa à tentativa de condensar meses e meses de ausência física, conversando. E pronto! Começamos como se ontem mesmo tivéssemos visto um ao outro, e, como era tudo tão espontâneo, reassumimos a velha prática de sairmos aos sábados para continuar a rir, e rir, e rir, e gozar da companhia um do outro, como convém àqueles que matam a família e vão ao cinema...

Enfim, depois de rodar e rodar e rodar, estávamos num bar e conhecidos vinham cumprimentar, e era comum me perguntarem pelo Exu quando me cumprimentavam. Sempre soube que não seria de uma hora pra outra que as pessoas nos desvinculariam, mas a gota d’água pingou quando uma amiga me pediu o número do celular e colocou o nome do Exu entre parênteses, ao lado do meu nome, pra eu ser mais facilmente identificado. Quando vi o meu nome de novo ao lado do Exu, alguma coisa “ligou” dentro de mim e eu percebi que eu não ia mais me incomodar com o ambiente e querer ir embora depois de apenas meia hora dentro do bar. A partir daquele momento o mundo tomou cores e formas tão curiosas que eu poderia viver ali dentro. O globo de espelhos assumiu um novo significado e nele eu vi o mundo dando voltas, e voltas, e voltas, e numa das de 360 graus eu me enxergava de novo em Governador Valadares, entre pessoas que anonimamente compuseram um fundo para a minha vida, e que agora, outra vez, serviriam de plano de fundo para eu meditar. A multidão serviu para eu perceber que o Léo se destacava.... que rostos familiares e que sorriam de volta quando eu sorria faziam toda a diferença, e que, por causa do sorriso, se destacavam daquela massa homogênea de histórias. Por causa do meu sorriso eu percebi – eu e o globo de espelhos – o que eu fazia em Governador Valadares. Cada abraço naquele bar me fez perceber que eu queria sintetizar alguma coisa; que eu queria abraçar o Flávio, o Marcelo, o Léo, a Élida, o Glayson... Eu queria entrar neles todos e ficar lá dentro! Eu estava em Valadares por causa das pessoas que me são importantes e da necessidade de dizer-lhes adeus. Para mim, esse abraço seria algo parecido com o momento em que, depois de muito sofrer, o moribundo subitamente melhora e abraça, e sorri, e diz as coisas que precisa, só pra morrer quase que imediatamente: eu estou morrendo, e percebi que preciso dizer adeus aos que me são importantes. Dizer adeus aos que me são e aos que me foram importantes.

E então outra pessoa me perguntou sobre o Exu, e eu saí do transe e vi as pessoas dançando outra vez em volta do globo de espelhos. Na verdade não me perguntara se eu tinha ido sozinho ao bar, mas se ele estava bem, e se nós ainda tínhamos contato. Eu tremi de pavor e arregalei os olhos porque eu estava tão imerso na reflexão que eu tinha me esquecido que ele tinha um nome! Meu Deus, ele tem um nome! E quando eu me lembrei que ele tinha um nome, ele, automaticamente, não era mais apenas o Exu: ele voltara a ter alma! Ele voltou a ter alma e, mais que imediatamente, voltou a ter cara... e entendi que fato de nós não mais estarmos juntos não fazia de nenhum de nenhum de nós dois pessoas ruins... muito pelo contrário; eu mudei quando percebi que nós não mais dividiríamos o futuro que eu criei – sozinho – pra nós dois... ele é exatamente a mesma pessoa... Era eu que não enxergava... e eu quis dizer-lhe adeus. Mas para quê? Será que eu estava com medo de passar a acreditar que eu tinha mais culpa do que eu achei que tivesse se não pusesse um ponto final nisso tudo? Mas por quê?

Todo o futuro de universos infinitamente paralelos passou pela minha cabeça quando eu me perguntei o porquê do desejo de finalizar, e notei que eu adiava certo momento comum em todos eles porque na mesma etapa eu me via ensaiando falas, caras e bocas em diversas versões de não dizer nem falar nada. E diante da maioria dos silêncios nos quais a minha imaginação era mais que bifurcada, eu me sentia perdido como que recebendo um e-mail importante que eu não tinha coragem de abrir. Um daqueles e-mails que tememos o conteúdo. Pensei um dia hipoteticamente inteiro sobre o que poderia lá dentro estar escrito. E pra me salvar eu resumi: eu deletaria ou leria o e-mail, enfim? Vale a pena mexer no passado? É toda conciliação que tem que existir? O que o passado quer comigo? Será que é ele que quer alguma coisa comigo, gente? Ou sou eu que quero me santificar? E o globo de espelhos continuava girando, mas agora irradiando luz colorida. E todos dançavam. Menos eu. Então eu voltei a olhar pro giro vivo do globo de espelhos. Era melhor. Foi quando eu me levantei da mesa sem me despedir de ninguém e falei com o Léo: “Amanhã irei ao shopping! Sim! É isso que eu vou fazer amanhã”!

Quem vê cara não vê a experiência... não, não!

Estava eu conversando sobre a minha experiência no exterior, meio que como um avô contando histórias fantásticas aos netos, quando o Léo (Heggendorn) disse: “Londres é tudo!”, e eu respondi: “sim, eu sei... eu estive lá!”. E enquanto dizia essa frase eu percebia que não se pode ver a experiência no rosto das pessoas. O próprio Léo não parecia marcado pelas dele, por trás do sorriso espontâneo do agora. Dizem que quem vê cara não vê coração, mas não é verdade... as pessoas tocam ou não tocam a gente sim, mas a experiência é impossível de se ver: não se sabe se a pessoa unta a fôrma antes de levar o bolo ao forno, ou se gosta de sorvete derretido, ou se come as bordas da pizza antes da “própria” pizza. Eu mesmo aparento nunca ter saído de Governador Valadares... e como o Marcelo disse, tudo ficou meio que sublimado – o fato de eu nunca ter me despedido formalmente ou de não ter havido choradeira, fez parecer com que eu nunca tivesse deixado a casa dos meus pais. Era como se nada, absolutamente nada tivesse acontecido, e que o “ontem” se resumisse ao último encontro.

Tempo, tempo, tempo, tempo.

A realidade é que cada pessoa vive num tempo diferente, segundos – até minutos, distantes uma da outra. Aconteceu isso comigo esses dias: eu tinha um compromisso às 16h00; mas no meu relógio já eram 16h05, no do meu pai ainda eram 16h01, a catedral marcava 16h03 e o elevador dizia que eram 16h04 – o relógio do carro marcava 15h01, e fui recebido com um sorriso de meia-boca e um abraço simultâneo à frase: “Pontualidade britânica!” E eu odeio quando não acompanham meu tempo, meu Deus! Pra mim é como ouvir quadros sendo aranhados o tempo todo, quando alguém não sabe o que eu já sei. Pra mim, eu sou sempre pontual... chego sempre na hora em que eu devo chegar – quando não desisto de ir, na metade do caminho. Meu intervalo de sincronia é o meu próprio ponto de referência. E por que essa preocupação com o meu êxodo pessoal? Tem sempre alguém ou alguma coisa indo e vindo que eu posso me dar ao luxo de praticar estática de vez em quando – brincar de faquir!

18.12.06

GPS!

Prá onde vai tudo isso que eu entendo? Como vou saber prá onde vai se eu não sei nem oque fazer com o que eu vou entendendo? Aliás, será que eo que eu vou entendendo vai para algum lugar: eu esqueço? Eu uso? Prá que serve o que eu entendo, meu Deus? Eu me liberto entendendo? ...não, eu sei que não: a busca é eterna.

9.12.06

ASSOMBRADO!

Na madrugada, as já vastas ruas de Governador Valadares ficam ainda mais largas quando cobertas com a luz laranja das lâmpadas de mercúrio. É solitário sim, mas não dói; eu até gosto das lâmpadas de mercúrio porque elas não são tão explicitamente brancas. As lâmpadas de mercúrio desnudam a verdade, mas dão um quê de mistério e charme a ela. ...e é assim que eu gosto da verdade. E como eu dizia, as ruas vazias madrugada afora desenham sombras e eu fico brincando de adivinhar o que elas querem ser. Tenho pena dos paralelepípedos que queriam ser postes, ou do asfalto que queria ser morada. Pobres dos assombrados, porque eles não têm imaginação para sonhar.

Eu não olho para a minha sombra desde... eu não me lembro quando foi a última vez que eu olhei pra minha sombra! Estou pasmo! Tentei olhar para ela agora, mas fiquei com medo! Foi o medo puro. E esse medo me fez entender o que é medo, meu Deus! É o medo da verdade – o arquétipo do medo, meu Deus! Medo é negação, é preguiça. Medo é uma forma de recusar a verdade! Insisti: não queria fugir da verdade (ou do que eu acho que seja verdade) mas desisti rapidamente porque eu comecei a devagar e a pensar na forma com que a minha sombra queria parecer hoje. Foi aí que me espantei de surpresa: eu não sei com o que a minha sombra se parece hoje; e de tão misteriosa, ela não me dá pistas. Estou pasmo com a nossa displicência – minha e de minha sombra. Afinal, quem deixou de procurar quem? Tentei olhar de relance, mas a sombra se escondeu por detrás de outra sombra... mas tive certeza de que ela está viva porque eu acenei e ela acenou de volta. Estava ela realmente ali o tempo todo ou será que ela realmente só me procura quando eu estou diante da luz laranja? Quem é a minha sombra? Meu Deus, só agora a cidade me conta seus segredos. Somente agora que eu não mais vivo aqui e que por isso, não sou mais ameaça familiar. Não sou mais um perigo latente – alguém que pode gritar a qualquer momento e denunciar a real intenção dos objetos que as pessoas insistem em chamar de inanimados... Que lindo, meu Deus: essa é a minha vida sem mim! Num universo paralelo eu não fui, e exatamente desse jeito este “eu” está. A vida segue adiante... e sem mim! Mas será que ele tem consciência disso?

Na noite passada quando eu desliguei o carro e olhei pra minha casa, eu sorri. E ela sorriu de volta – pro meu espanto! Ela sorriu de volta porque ela não é mais minha – e ela sabia que eu já percebia isso! Minha casa também se mostrou pra mim e quis que eu a conhecesse por inteiro. Ela não tinha mais medo de mim e queria me falar tudo... absolutamente tudo, como quem está prestes a morrer. E nessa ânsia de quem ia morrer eu fiz um retrato da minha casa que é assim: Minha casa tem cheiro de não sei o que, mas é esse não sei o que me intriga: é cheiro de antítese e de contradição. E olhando para essa fotografia eu senti balaústres. Balaústres de noite, com a luz da lua refletindo no cinza dos contornos – teria eu certeza de que não seria outro poste? Não sei, mas sei que eram brilhantes olhos úmidos... eu podia sentir o sal desses olhos, meu Deus! Daí o portão rangeu e eu subi pelos degraus de ardósia porcamente recortados, sem me apoiar no corrimão. Abri a porta. Foi aí que eu senti o cheiro da minha casa, seu buquê – sua real identidade... cheiro de 20 anos, cheiro de saudade. O silêncio nessa casa é pulsante como um coração sadio – por isso a casa é morna. Eu me perco em casa! Por conta dessa fotografia eu percebi o jogo confuso de portas na casa... Que acessibilidade! Será por causa das portas que a casa é tão acolhedora? As portas são a continuidade, meu Deus! As portas são a anti-rotina! Estou realmente intrigado: vivi vinte anos da minha vida nesta casa e percebi que não sei quantas placas de ardósia temos no chão! Estou boquiaberto: a casa é viva! Ela é viva e fala comigo...e eu entendo! Que maravilhosa simbiose, meu Deus! Estamos todos vivos: eu, você e a casa. Sim, porque alma existe independente de alguém lá a colocar. A alma escolhe o corpo. E agora eu quero a alma de cada paralelepípedo da cidade. (Quero mesmo?)

Eu vejo tudo de um ângulo diferente agora – está tudo transversal, meu Deus! O sentido de tudo me escapa depois de alguns segundos e eu fico com essa cara abobada de quem sabe, mas não pode falar. Cara de segredo! Essa repentina crise de sinceridade da cidade me fez perceber que, apesar de a mesma, ela não é mais minha. Sim, porque ela me revelou seu segredo, meu Deus! Nela estão as mesmas pessoas com os mesmos problemas. Até eu descobri o meu mesmo aqui na cidade e – pasmo, me acostumei. Eu me acostumei, mas não quero a facilidade de me repetir. Meu Deus, como é fácil me repetir! Digo, eu me repito todos os dias, mas tem algo de sórdido nessa repetição... e eu me sinto sujo. Excitantemente sujo, quer dizer. Culpa... a culpa é como um vinho seco... seco e tinto... que me enche a boca docemente, mas se revela forte na língua e desce esôfago abaixo deixando o rastro do calor. Com ele eu viajo dimensões afora, infinitamente: vivo vidas, tenho idéias, arquiteto planos, embebedo-me de possibilidades... e gozo palavras!

3.12.06

Pergunta Retórica #2:

(Foi) A semiótica (que) acabou com a minha vida?